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Posts Tagged ‘karen Armnstrong; T. S. Eliot; poesia; vida; presente;’

Não. Não vou dizer nada sobre carnaval. Nem sobre o que acontece quando ele acaba.

Essa é uma poesia que eu ouvi no programa Saia Justa, citada pela jornalista Mônica Waldvogel e fala sobre algo que eu busco – viver no presente.

Porque é aqui e agora.

Nos versos de T. S. Eliot:

Quarta-feira de cinzas

I

Porque não mais espero retornar

Porque não espero

Porque não espero retornar

A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto

Não mais me empenho no .empenho de tais coisas

(Por que abriria a velha águia suas asas?)

Por que lamentaria eu, afinal,

O esvaído poder do reino trivial?

Porque não mais espero conhecer

A vacilante glória da hora positiva

Porque não penso mais

Porque sei que nada saberei

Do único poder fugaz e verdadeiro

Porque não posso beber

Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,

Pois lá nada retorna à sua forma

Porque sei que o tempo é sempre o tempo

E que o espaço é sempre o espaço apenas

E que o real somente o é dentro de um tempo

E apenas para o espaço que o contém

Alegro-me de serem as coisas o que são

E renuncio à face abençoada

E renuncio à voz

Porque esperar não posso mais

E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar

De que me possa depois rejubilar

E rogo a Deus que de nós se compadeça

E rogo a Deus porque esquecer desejo

Estas coisas que comigo por demais discuto

Por demais explico

Porque não mais espero retornar

Que estas palavras afinal respondam

Por tudo o que foi feito e que refeito não será

E que a sentença por demais não pese sobre nós

Porque estas asas de voar já se esqueceram

E no ar apenas são andrajos que se arqueiam

No ar agora cabalmente exíguo e seco

Mais exíguo e mais seco que o desejo

Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo

Ensinai-nos a estar postos em sossego.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte

Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

II

Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro

Ao frescor do dia repousavam, saciados

De meus braços meu coração meu fígado e do que havia

Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:

Viverão tais ossos? Tais ossos

Viverão? E o que pulsara outrora

Nos ossos (secos agora) disse num cicio:

~raças à bondade desta Dama

E à sua beleza, e porque ela

A meditar venera a Virgem,

É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui

dissimulado

Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor

Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.

Isto é o que preserva

Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas

Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se

De branco vestida, orando, de branco vestida.

Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.

A vida os excluiu. Como esquecido fui

E preferi que o fosse, também quero esquecer

Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:

Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente

O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono

Com o estribilho dos grilos, sussurrando:

Senhora dos silêncios

Serena e aflita

Lacerada e indivisa

Rosa da memória

Rosa do oblívio

Exânime e instigante

Atormentada tranqüila

A única Rosa em que

Consiste agora o jardim

Onde todo amor termina

Extinto o tormento

Do amor insatisfeito

Da aflição maior ainda

Do amor já satisfeito

Fim da infinita

jornada sem termo

Conclusão de tudo

O que não finda

Fala sem palavra

E palavra sem fala

Louvemos a Mãe

Pelo Jardim

Onde todo amor termina.

Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,

Alegramo-nos de estar aqui dispersos,

Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,

Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,

Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos

Na quietude do deserto. Eis a terra

Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão

Não importam. Eis a terra. Nossa herança.

III

Na primeira volta da segunda escada

Voltei-me e vi lá embaixo

O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão

Sob os miasmas que no fétido ar boiavam

Combatendo o demônio das escadas, oculto

Em dúbia face de esperança e desespero.

Na segunda volta da segunda escada

Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;

Nenhuma face mais na escada em trevas,

Carcomida e úmida, como a boca

Imprestável e babugenta de um ancião,

Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.

Na primeira volta da terceira escada

Uma túmida ventana se rompia como um figo

E além do espinheiro em flor e da cena pastoril

A silhueta espadaúda de verde e azul vestida

Encantava maio com uma flauta antiga.

Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos

Tangidos por um sopro sobre os lábios,

Cabelos castanhos e lilases;

Frêmito, música de flauta, pausas e passos

Do espírito a subir pela terceira escada,

Esmorecendo, esmorecendo; esforço

Para além da esperança e do desespero

Galgando a terça escala.

Senhor, eu não sou digno

Senhor, eu não sou digno

mas dizei somente uma palavra.

IV

Quem caminhou entre o violeta e o violeta

Quem caminhou por entre

Os vários renques de verdes diferentes

De azul e branco, as cores de Maria,

Falando sobre coisas triviais

Na ignorância e no saber da dor eterna

Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou

Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras

Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias

De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,

Sovegna vos

Eis os anos que permeiam, arrebatando

Flautas e violinos, restituindo

Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta

Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.

Os novos anos se avizinham, revivendo

Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,

resgatando

Com um verso novo antigas rimas. Redimem

O tempo, redimem

A indecifrada visão do sonho mais sublime

Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.

A irmã silenciosa em véus brancos e azuis

Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,

Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se

Mas sem dizer palavra alguma

Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou

Redimem o tempo, redimem o sonho

O indício da palavra inaudita, inexpressa

Até que o vento, sacudindo o teixo,

Acorde um coro de murmúrios

E depois disto nosso exílio

V

Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou

Se a palavra inaudita e inexpressa

Inexpressa e inaudita permanece, então

Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,

O Verbo sem palavra, o Verbo

Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;

E a luz nas trevas fulgurou

E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete

Rodopiando em torno do silente Verbo.

Ó meu povo, que te fiz eu.

Onde encontrar a palavra, onde a palavra

Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso

Não sobre o mar ou sobre as ilhas,

Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.

Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia

Tempo justo e justo espaço aqui não existem

Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam

Nenhum tempo de júbilo para os que caminham

A renegar a voz em meio aos uivos do alarido

Rezará a irmã velada por aqueles

Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,

Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre

Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles

Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada

Pelas crianças no portão

Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:

Orai por aqueles que escolhem e desafiam

Ó meu povo, que te fiz eu.

Rezará a irmã velada, entre os esguios

Teixos, por aqueles que a ofendem

E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem

E o mundo afrontam e entre as rochas negam?

No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis

O deserto no jardim o jardim no deserto

Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.

Ó meu povo.

VI

Conquanto não espere mais voltar

Conquanto não espere

Conquanto não espere voltar

Flutuando entre o lucro e o prejuízo

Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam

No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a

morte

( Abençoai-me pai) conquanto agora

Já não deseje mais tais coisas desejar

Da janela debruçada sobre a margem de granito

Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo

Invioladas asas

E o perdido coração enrija e rejubila-se

No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar

E o quebradiço espírito se anima em rebeldia

Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia

Anima-se a reconquistar

O grito da codorniz e o corrupio da pildra

E o olho cego então concebe

Formas vazias entre as partas de marfim

E a maresia reaviva o odor salgado das areias

Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte

O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam

Entre rochas azuis

Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem

Que outro teixo sacudido seja e possa responder.

Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,

Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos

Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo

Ensinai-nos a estar postos em sossego

Mesmo entre estas rochas,

Nossa paz em Sua vontade

E mesmo entre estas rochas

Mãe, irmã

E espírito do rio, espírito do mar,

Não permiti que separado eu seja

E que meu grito chegue a Ti.

Tradução de Ivan Junqueira, do original: Collected Poems 1909-1962, para a Editora Nova Fronteira em 1981

Pode ser encontrado do livro de Karen Armstrong , A escada espiral, Companhia das Letras

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