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Archive for the ‘Cult’ Category

Não. Não vou dizer nada sobre carnaval. Nem sobre o que acontece quando ele acaba.

Essa é uma poesia que eu ouvi no programa Saia Justa, citada pela jornalista Mônica Waldvogel e fala sobre algo que eu busco – viver no presente.

Porque é aqui e agora.

Nos versos de T. S. Eliot:

Quarta-feira de cinzas

I

Porque não mais espero retornar

Porque não espero

Porque não espero retornar

A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto

Não mais me empenho no .empenho de tais coisas

(Por que abriria a velha águia suas asas?)

Por que lamentaria eu, afinal,

O esvaído poder do reino trivial?

Porque não mais espero conhecer

A vacilante glória da hora positiva

Porque não penso mais

Porque sei que nada saberei

Do único poder fugaz e verdadeiro

Porque não posso beber

Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,

Pois lá nada retorna à sua forma

Porque sei que o tempo é sempre o tempo

E que o espaço é sempre o espaço apenas

E que o real somente o é dentro de um tempo

E apenas para o espaço que o contém

Alegro-me de serem as coisas o que são

E renuncio à face abençoada

E renuncio à voz

Porque esperar não posso mais

E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar

De que me possa depois rejubilar

E rogo a Deus que de nós se compadeça

E rogo a Deus porque esquecer desejo

Estas coisas que comigo por demais discuto

Por demais explico

Porque não mais espero retornar

Que estas palavras afinal respondam

Por tudo o que foi feito e que refeito não será

E que a sentença por demais não pese sobre nós

Porque estas asas de voar já se esqueceram

E no ar apenas são andrajos que se arqueiam

No ar agora cabalmente exíguo e seco

Mais exíguo e mais seco que o desejo

Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo

Ensinai-nos a estar postos em sossego.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte

Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

II

Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro

Ao frescor do dia repousavam, saciados

De meus braços meu coração meu fígado e do que havia

Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:

Viverão tais ossos? Tais ossos

Viverão? E o que pulsara outrora

Nos ossos (secos agora) disse num cicio:

~raças à bondade desta Dama

E à sua beleza, e porque ela

A meditar venera a Virgem,

É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui

dissimulado

Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor

Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.

Isto é o que preserva

Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas

Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se

De branco vestida, orando, de branco vestida.

Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.

A vida os excluiu. Como esquecido fui

E preferi que o fosse, também quero esquecer

Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:

Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente

O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono

Com o estribilho dos grilos, sussurrando:

Senhora dos silêncios

Serena e aflita

Lacerada e indivisa

Rosa da memória

Rosa do oblívio

Exânime e instigante

Atormentada tranqüila

A única Rosa em que

Consiste agora o jardim

Onde todo amor termina

Extinto o tormento

Do amor insatisfeito

Da aflição maior ainda

Do amor já satisfeito

Fim da infinita

jornada sem termo

Conclusão de tudo

O que não finda

Fala sem palavra

E palavra sem fala

Louvemos a Mãe

Pelo Jardim

Onde todo amor termina.

Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,

Alegramo-nos de estar aqui dispersos,

Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,

Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,

Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos

Na quietude do deserto. Eis a terra

Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão

Não importam. Eis a terra. Nossa herança.

III

Na primeira volta da segunda escada

Voltei-me e vi lá embaixo

O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão

Sob os miasmas que no fétido ar boiavam

Combatendo o demônio das escadas, oculto

Em dúbia face de esperança e desespero.

Na segunda volta da segunda escada

Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;

Nenhuma face mais na escada em trevas,

Carcomida e úmida, como a boca

Imprestável e babugenta de um ancião,

Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.

Na primeira volta da terceira escada

Uma túmida ventana se rompia como um figo

E além do espinheiro em flor e da cena pastoril

A silhueta espadaúda de verde e azul vestida

Encantava maio com uma flauta antiga.

Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos

Tangidos por um sopro sobre os lábios,

Cabelos castanhos e lilases;

Frêmito, música de flauta, pausas e passos

Do espírito a subir pela terceira escada,

Esmorecendo, esmorecendo; esforço

Para além da esperança e do desespero

Galgando a terça escala.

Senhor, eu não sou digno

Senhor, eu não sou digno

mas dizei somente uma palavra.

IV

Quem caminhou entre o violeta e o violeta

Quem caminhou por entre

Os vários renques de verdes diferentes

De azul e branco, as cores de Maria,

Falando sobre coisas triviais

Na ignorância e no saber da dor eterna

Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou

Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras

Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias

De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,

Sovegna vos

Eis os anos que permeiam, arrebatando

Flautas e violinos, restituindo

Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta

Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.

Os novos anos se avizinham, revivendo

Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,

resgatando

Com um verso novo antigas rimas. Redimem

O tempo, redimem

A indecifrada visão do sonho mais sublime

Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.

A irmã silenciosa em véus brancos e azuis

Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,

Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se

Mas sem dizer palavra alguma

Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou

Redimem o tempo, redimem o sonho

O indício da palavra inaudita, inexpressa

Até que o vento, sacudindo o teixo,

Acorde um coro de murmúrios

E depois disto nosso exílio

V

Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou

Se a palavra inaudita e inexpressa

Inexpressa e inaudita permanece, então

Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,

O Verbo sem palavra, o Verbo

Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;

E a luz nas trevas fulgurou

E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete

Rodopiando em torno do silente Verbo.

Ó meu povo, que te fiz eu.

Onde encontrar a palavra, onde a palavra

Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso

Não sobre o mar ou sobre as ilhas,

Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.

Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia

Tempo justo e justo espaço aqui não existem

Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam

Nenhum tempo de júbilo para os que caminham

A renegar a voz em meio aos uivos do alarido

Rezará a irmã velada por aqueles

Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,

Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre

Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles

Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada

Pelas crianças no portão

Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:

Orai por aqueles que escolhem e desafiam

Ó meu povo, que te fiz eu.

Rezará a irmã velada, entre os esguios

Teixos, por aqueles que a ofendem

E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem

E o mundo afrontam e entre as rochas negam?

No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis

O deserto no jardim o jardim no deserto

Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.

Ó meu povo.

VI

Conquanto não espere mais voltar

Conquanto não espere

Conquanto não espere voltar

Flutuando entre o lucro e o prejuízo

Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam

No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a

morte

( Abençoai-me pai) conquanto agora

Já não deseje mais tais coisas desejar

Da janela debruçada sobre a margem de granito

Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo

Invioladas asas

E o perdido coração enrija e rejubila-se

No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar

E o quebradiço espírito se anima em rebeldia

Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia

Anima-se a reconquistar

O grito da codorniz e o corrupio da pildra

E o olho cego então concebe

Formas vazias entre as partas de marfim

E a maresia reaviva o odor salgado das areias

Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte

O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam

Entre rochas azuis

Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem

Que outro teixo sacudido seja e possa responder.

Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,

Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos

Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo

Ensinai-nos a estar postos em sossego

Mesmo entre estas rochas,

Nossa paz em Sua vontade

E mesmo entre estas rochas

Mãe, irmã

E espírito do rio, espírito do mar,

Não permiti que separado eu seja

E que meu grito chegue a Ti.

Tradução de Ivan Junqueira, do original: Collected Poems 1909-1962, para a Editora Nova Fronteira em 1981

Pode ser encontrado do livro de Karen Armstrong , A escada espiral, Companhia das Letras

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Dias desses estava eu pesquisando pela rede um porquinho cofrinho para dar de presente, queria fugir da mesmice dos cofrinhos que vemos por ai, queria algo mais autentico, com design, enfim eu queria um porquinho com personalidade e atitude!

Foi quando eu conheci o Furf Design Studio, e me encantei pela criação desse pessoal, que alem de tudo são brasileiros! Logo de cara morri de amores por esse porquinho que eles criaram, e o melhor de tudo é o titulo que eles deram “A vingança do porquinho” (demais não?!), não bastasse esse porquinho cheio de atitude, os outro objetos criados por eles conseguem ser criativos e ao mesmo tempo simples,  acho demais isso!

Como essa banqueta com asas de anjinhos pros seus pestinhas!!

Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho desse pessoal de Curitiba é só clicar no link ali em cima!

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Estou viciada no aplicatico do Cool Huting é super dinâmico cheio de informações e curiosidades bem legais e diferentes!!  Vale a pena baixar no seu ipad!!

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Adoro essa coisa de cinema cult na Augusta, salinha pequena, puro charme. Adoro esse tipo de filme, me entrego e me envolvo o quanto eu posso. E dou várias chances pro filme me conquistar. E foi assim que fui assistir Ricky, um filme dirigido por François Ozon que é um diretor francês super jovem, tem apenas 43 anos de idade.

Quando vi esse cartaz não pensei o quanto sairia surpreendida do cinema. Aliás, foi assim que me senti durante a primeira meia hora de filme.

O meu lado “wanna be cult” não é tão tolerante assim. Não sou tão simples de prender a atenção e nem mesmo consigo ver significado em qualquer borrão que olho. Mas dei umas três chances para esse filme me conquistar. E valeu muito a pena!’

É um tanto estranho porque começa tão realista, daquele tipo de filme sem nenhum cenário bonito ou ator produzido, e de repente dá uma virada lunática. Aí eu torci o nariz, mas achei tão curioso que resolvi ficar pra ver qual seria o final daquilo. E foi incrível embarcar na surpresa e pegar o ticket da viagem oferecida pelo diretor e imaginar.

Pra mim o filme é uma metáfora. E foi bom demais contar a mensagem que veio pra mim. Pena que não posso dizer aqui senão perde a graça.

Eu assisti no Espaço Unibanco Augusta e Anexo (Sala 5).

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Em um final de semana em SP fui convidada por uma amiga a ir em um cinema “descolado” ali na Rua Augusta e, apesar de ter morado muito tempo por ali, ainda não conhecia o cinema. Já adorei o lugar, as pessoas… Fica no Espaço Unibanco, tem uma livraria, um café, bem bacana! O filme escolhido foi o premiado “Cópia Fiel”, com a francesa Juliette Binoche (aquela que ganhou o Oscar por “O Paciente Inglês” em 1997) como Melhor atriz no Festival de Cannes 2010 e o cantor lírico britânico William Shimell, estreando no cinema, dirigido pelo iraniano Abbas Kiarostami e filmado em belíssimos cenários da Toscana.

É um daqueles filmes intrigantes, que no final você não sabe se entendeu ou não. Eu adorei. E a vontade de escrever esse post pra vocês surgiu de um comentário de um amigo no facebook que dizia assim: “Uma francesa descabelada, sem maquiagem (ok, 1 leve batom), de sapatinho tipo sapatilha, caminhando nas ruas de Arezzo (Toscana) é 300x mais elegante que qq americana. hhehehe” Concordo com tudo!!!

Vou colocar aqui uma crítica que eu adorei sobre o filme:

Mundo da arte
Além da natureza instável do amor, ‘Cópia fiel’ toca outros temas – o primeiro deles, o que dá nome à obra, em torno da importância da discussão sobre o que é autêntico ou falsificado, e o valor, relativo ou absoluto, das muitas cópias encontradas no mundo da arte.

Nesta discussão, é envolvido inclusive um casal de passagem, (o famoso roteirista Jean-Claude Carrière e Agathe Natanson). Justamente quando procura engajá-los a favor de seus argumentos, a protagonista encontra no passante ocasional um intérprete ideal do que está, emocionalmente, tentando dizer a Miller – sem que este a entenda, independentemente da língua que ela fale.

Essas várias línguas que se sobrepõem são o símbolo vivo das várias camadas de incompreensão que podem se acumular entre as pessoas nesta Babel que não é só linguística, mas sobretudo emocional e amorosa. Os vários casais que aparecem no filme – os jovens noivos apaixonados que se sucedem para uma foto junto a uma estátua tida como portadora de sorte; o par maduro que conduz o filme; e uma dupla de velhinhos que eles encontram perto do final – todos se somam como retratos dos vários tempos do amor.

Essa maneira circular de expor seu tema é o grande segredo da magia do filme, que demonstra o engenho raro de sua direção e de sua dupla principal de atores, conduzindo-se esta espiral de sensações com inteligência e sutileza exemplares. Não é o tipo do filme que se vê todos os dias. Mas é certamente o tipo que se deseja imediatamente rever.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

Ela está maravilhosa! Só faltou um detalhe, o vestido que ela passa o filme todo, um Lanvin, impediu a exibição do filme no Irã.

Outra curiosidade também, foi que  ao agradecer o prêmio no Palácio dos Festivais, a francesa exibiu um papel com o nome do diretor iraniano Jafar Panahi, que estava preso há mais de um mês, acusado de ter preparado um filme sobre as manifestações posteriores à controversa reeleição do presidente Mahmud Ahmadinejad em 2009. Panahi foi liberado na terça-feira sob fiança, 48 horas depois do encerramento do Festival de Cannes, para o qual havia sido convidado a integrar o júri.

Eu recomendo.

 

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‘Nosso dever é experimentar’ – Aleksandr Ródtchenko

Wannabes, vale a pena visitar a exposição do russo Aleksandr Ródtchenko (1891-1956) na Pinacoteca – SP. Com cerca de 300 obras de fotomontagens, feitas para capas de revistas como Novi LEF e Dal ochi Pionier, cartazes e anúncios, a reportagens.

Há pouco eu havia “conhecido” o poeta russo Vladimir Maiakóvski, que teve um de seus poemas recitado no aniversário de uma grande amiga, e lá pude vê-lo (logo na entrada)  sob os olhos de seu amigo Aleksandr Ródtchenko considerado um dos grandes inovadores da arte de vanguarda do século XX. Maiakóvski já foi interpretado no Brasil nas músicas de Gal Costa (O Amor) e João Bosco (E então que quereis).

Maiakóvski

Para a curadora Olga Svíblova, “em 1924, a fotografia foi invadida por Ródtchenko com o slogan firmado no centro de sua estética. O resultado dessa invasão foi uma mudança fundamental nas ideias sobre a natureza da fotografia e o papel do fotógrafo”. Ródtchenko aliou a experimentação formal a preocupações documentais sobre a vida política e social da União Soviética em seu período inaugural, dos anos de Lênin até o regime repressor iniciado por Stálin (que o colocou no ostracismo nos seus últimos 20 anos de vida). “Ele introduziu a ideologia construtivista na fotografia e desenvolveu métodos e instrumentos para aplicá-las”, completa Olga. (http://pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=527&mn=100)

Na Pinacoteca do Estado de São Paulo até 01 de maio de 2011

Praça da Luz, 02 – Luz – Tel. 11 3324-1000

Terça a domingo das 10h às 17h30 com permanência até as 18h

Ingresso combinado (Pinacoteca e Estação Pinacoteca): R$ 6,00 e R$ 3,00

Grátis aos sábados.

Estudantes com carteirinha pagam meia entrada.

Crianças com até 10 anos e idosos maiores de 60 anos não pagam.

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“Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via.

[…] Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. […] O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas por que não tinha podido ser. […]

[…]

[…] Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato pra mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. […] … é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que ainda extraí de mim de um grito mudo. […] Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.” (Clarice Lispector, “do rio de janeiro e seus personagens”, Rio de Janeiro: Rocco, p. 17 a 22 – perdoando deus)

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